Terça-feira, Abril 26, 2005

Riste. Não, talvez não. Quase riste. Sorriste. Sorriste com os olhos. Verdes. Profundos. Podia até afogar-me neles. Mas não. Absorveste-me no teu sorriso. Tomaste-me. Cuidaste-me. Fizeste-me sorrir.

Sorri-te sim, quase ri, mas não. Sorri como só tu me fazes sorrir. Sorri mais ainda quando te vi sorrir, quando te percebi sorrir, não por fora onde todos os sorrisos se banalizam, mas no olhar.
Por momentos achei-te vidrado em mim, só depois percebi que era eu quem te fixava, que era eu quem te vibrava naquele silêncio e quem te contemplava naquela cumplicidade só nossa.

Embebido em ti, desmoronaram-se as muralhas que me protegiam do mundo. Sorri-te. Tu sorrias-me. Quase podia jurar que era amor. Talvez não. Afastei rapidamente esse pensamento com medo que fosse verdade. Quis beijar-te. Assim, ao longe. Quis que a minha mão se soltasse das suas algemas imaginárias, que atravessasse a mesa que nos separa e segurasse a tua. Mas não. Não disse nada com medo que alguma das palavras fosse a correcta

Apetecia-me dizer-te algo, alguma coisa, qualquer coisa, tanta coisa para dizer… mas tive medo, nada poderia perturbar aquele momento. A eternidade daquele olhar, da cumplicidade, ou até mesmo a intimidade implícita naqueles sorrisos. Mas não, afinal, qualquer palavra seria pequena demais para afastar a pureza daquele momento. Não disse nada.
E então voltei a sorrir-te, sorri sem medos, sem pensar, sem barreiras e sem qualquer defesa. Sorri-te porque me fazes sorrir. Afinal, é isso o amor.


Não, não podia haver medos. Na humana perfeição daquele momento não podia haver lugar para medos. Talvez puxada pelo teu olhar, pelo teu sorriso, pelo meu sorriso consequente do teu, deslizei a mão trémula sobre a mesa. Tropeçou num copo que quase entornou, num cinzeiro quase cheio. Parou a meio da mesa. Aguardando a tua mão que tardou. Mas chegou. Então a cumplicidade, a intimidade foram uma certeza. Sim, afinal é isto o amor.

Voltei a sorrir, voltaste a sorrir. Olhei-te nos olhos. De mel. E assim ficámos sem serem necessárias as palavras que confirmassem os sentimentos. Porque sim, o amor existe.

Porque o amor somos nós.


Escrito a meias com o Pedro, entre cigarros, bolas de gelado, e café...

Domingo, Janeiro 30, 2005

Acendi o último cigarro e encostei-me ao sofá. Não quis pensar, não quis aquele turbilhão de pensamentos e sentimentos a rolar a cem à hora pela minha cabeça em rodapé. Não quis a tua imagem permanente enquanto fechava os olhos e encostava a cabeça nas almofadas.
Queria-te aqui, sim aqui, ao pé de mim enquanto fumava este último cigarro, enquanto ouvia esta música melancólica pela última e milésima vez consecutiva esta noite.
Não queria mais nada senão o sentir da tua presença uma vez mais, aqui, agora.
Queria poder ficar outra vez, só a observar-te enquanto dormias, poder velar o teu sono, sorrir para ti, mesmo sem que me pudesses ver, ou sequer supor que o estava a fazer. Queria só poder dar-te mais um último beijo de boa noite na testa e observar-te. Só.
Queria só mais um pouco, por um pouco mais. Apagar as luzes, e voltar a sentir a tua respiração ao de fundo. Como que se a tua presença fosse o suficiente.
Não ter de, com a ponta do cigarro, desenhar as formas do teu corpo e fantasiar-te aqui. Agora.
Era só mais um pouco por um pouco mais, só o suficiente…

Domingo, Janeiro 09, 2005

Vazio… Há vezes em que é mesmo essa a única coisa que consigo sentir. Em que a única coisa que passa pela cabeça é aquele sentimento de insuficiência e impotência… talvez até desilusão e profunda tristeza por se ter como certo perdido algo de valioso por demais…

Ás vezes só me apetece chorar, e mesmo antes de poder tomar consciência disso, já me vão rolando as mais discretas lágrimas pela face abaixo… ás vezes nem tenho tempo para pensar em mais nada, senão para tentar suster aquele último soluço, e passar as mãos pelos olhos…

Foi aquele último abraço, foi aquela última lágrima que te vi verter, foi aquele beijo, e aquele sufoco que nem todas as despedidas trazem implícitas. Foi o não saber como te dizer adeus, o não querer dizer-te adeus, e mesmo assim, saber que tinha do dizer…
Foi como que se tirasse um pouco de mim, e como que se ao mesmo tempo estivesse a dar oportunidade a mim própria de guardar uma das coisas mais puras e mágicas da minha vida. Que sem dúvida foi…

Foi como que se te tivesse a guardar numa caixinha, todos aqueles momentos só nossos, todos aqueles risos, sorrisos, e lágrimas de felicidade, que nos fizeram crescer e acreditar mais um pouco. Como que se tivesse a depositar nesta mesma caixinha toda aquela felicidade e confiança que me trouxeste e tudo aquilo de bom que vejo em ti, como que se isto fosse possível... selo agora esta caixa com o mais puro dos sorrisos que te podia dar, e uma lágrima, não de tristeza, mas de felicidade. Fecho-a, e guardo-a junto ao peito, e carrego-a sempre comigo para onde quer que vá… Porque tu vais estar sempre comigo…*

Sábado, Dezembro 18, 2004

Saia à pressa da aula, o dia tinha sido mais cansativo e longo do que ela esperava, e ela já só conseguia sonhar com aquele banho quente, o edredon, o incenso do seu quarto, as suas músicas melancólicas preferidas na aparelhagem e a chuva a bater na janela.
Ao contrário de como sempre tinha planeado a sua vida, naquele dia ela seguia à velocidade da luz, dava cada vez passos mais largos e rápidos, talvez rápidos demais para o seu próprio equilíbrio… seguia a sorrir, distraída talvez num mundo de sonhos e mistérios só por ela compreendidos.

Tu… tu, seguias distraído como sempre. Tu sim, sem dúvida seguias nesse mundo de fantasia só teu, a que ninguém nunca teve acesso. Seguias calmamente como sempre, a passos longos, mas vagarosos, tão vagarosos que nem te apercebeste do turbilhão que se te aproximava.
Seguias com um qualquer panfleto ou flyer na mão, e ias a ler essa qualquer coisa, que até ela a certa altura teve curiosidade de ver.

E como dois desconhecidos que se esbarram numa estação de comboios, não conseguiste amparar a velocidade dela, e ela não conseguiu desviar-se do teu caminho. Se calhar os vossos caminhos estavam pré-destinados a cruzarem-se assim, tão inesperadamente, do nada…
Como dois desconhecidos que se esbarram numa estação de comboios, ela sorriu e pediu desculpa. Aquele sorriso que te fez gaguejar, ajeitar os óculos, apanhar-lhe os livros do chão, e dizeres-lhe que o prazer era todo teu.
Como dois desconhecidos que se esbarram numa estação de comboios, tu seguiste-a com os olhos à medida que ela se afastava, de recuo encarando-te timidamente. Como dois desconhecidos que se esbarram numa estação de comboios, ambos seguiram os seus caminhos… tendo sempre um, presente a existência do caminho do outro.

Dizem que há pessoas que passam por nós e não nos dizem nada, outras que passam por nós e dizem muito… Eu digo-te que tu não passaste… Tu ficaste.*

Quinta-feira, Novembro 18, 2004

Acendi a luz. Perdida no meio da tua ausência imaginei-te em cada bocadinho de sombra do meu quarto, vi-te no chão e nas paredes, nos móveis e no tecto, observei-te no global ao longe, e mais de perto preocupei-me em contemplar cada bocadinho de ti separadamente. Sem tempo, sem pressas.
Vi-te em cada bocadinho de luz que iluminava o meu espaço, senti-te presente para onde quer que olhasse, para onde quer que me virasse. Senti-te iluminar todos os meus sorrisos presentes nas fotos que tenho por aqui espalhadas, senti-te presente em cada olhar e em cada gesto meu. Senti-te presente aqui.
Apaguei a luz. Deitada no chão, já não eras a luz, já não eras a sombra, agora eras a escuridão que me abraçava e acalmava no meio do nada. Eras a minha segurança e o meu embalo. E como que por um sopro de magia senti-me quente, por dentro e por fora.
És a ponta do cigarro na escuridão, és aquela luzinha que permanece sobre o negro, és aquela certeza no meio do incerto, és aquele porto abrigo que deixa sempre um rasto de mistério e fantasia, és quem eu vejo agora a minha frente, és quem me sorri e me diz um segredo baixinho, és quem me tira as defesas e me abraça neste momento.